As motos, o trânsito, e a morte

Ultimamente há um grande alarde com relação ao número de acidentes com Motos, e eu resolvi falar um pouco o que eu acho sobre o assunto.


A Revista “Em discussão“, que é uma publicação do Senado Federal, teve sua edição do mês de Novembro de 2012 dedicada exclusivamente ao assunto das motos, trás em sua capa a manchete: “Explosão de motos e mortes”. A frase já dá o tom do que há nas próximas 43 páginas.

Longe de mim falar aqui sobre prudência no trânsito. Quem lê o Motos Blog a algum tempo sabe que eu não sou exemplo de bom comportamento. Apesar de abordar muito o aspecto da segurança, eu sempre atribuí a segurança em pilotar a bons equipamentos de proteção, boas condições de manutenção da Motocicleta e a bom treinamento em técnicas de pilotagem. O comportamento no trânsito obviamente influi muito sobre a probabilidade do Motociclista se envolver em um acidente, mas eu particularmente penso que isso, por si só, não resolve o problema. Hipocrisia? Não! Todo mundo pensa assim. Pouca gente dirige como os ursinhos carinhosos, e eu certamente não sou um deles.

Primeiramente os critérios de análise devem ser muito específicos. O Brasil é um país enorme, de diversidade cultural muito diferente, e não é difícil perceber que os problemas de trânsito do Nordeste, por exemplo, são muito diferentes dos problemas do Sul. Cada região possui suas próprias características econômicas, climáticas, sociais e culturais, e tudo isso é levado para as ruas quando o motociclista resolve pilotar. Então dizer “Mortes explodem no Brasil” pode parecer irreal. Elas podem ter aumentado em uma região e não ter aumentado em outra, e é preciso entender os motivos que levaram a isso.

Um dado interessante é que, segundo a revista do Senado, por ano morrem 7 Motociclistas a cada 100 mil habitantes. A revista chama isso de “epidemia”, no entanto, 26 de cada 100 mil habitantes morrem vítimas de homicídios e nem por isso o governo chama de “epidemia” o problema da segurança pública – pelo contrário – finge que não há problema e nada faz para mudar a situação.

Eu particularmente penso que existem seis grandes problemas que devem ser resolvidos para que possamos ver uma melhora neste quadro:

Criminalizar o comportamento perigoso

Enviando torpedo enquanto dirige


Motoristas de todos os veículos (e não apenas Motocicletas) negligenciam as leis de trânsito. Excedem o limite de velocidade, param em fila dupla, andam sem Capacete, sem cinto de segurança, falando ao celular, furando semáforos, alcoolizados, entorpecidos. Todos comportamentos de risco a vida (própria e alheia). Mas qual é a penalidade? Pontos na carteira, suspensão do direito de dirigir por alguns meses em alguns casos?

Eu acho essas penalidades muito brandas. Queria ver penas absurdamente pesadas. Quem dirigiria a 200 km/h sabendo que pode ficar 5 anos NA CADEIA, como acontece no Canadá por exemplo? Quem dirigiria alcoolizado sabendo que poderia perder o direito de dirigir por no mínimo 1 ano, e na reincidência, 3 anos – além de prisão e multa pesada, como acontece na Inglaterra? Quem estacionaria em local proibido se soubesse que seu veículo seria imediatamente imobilizado, e posteriormente guinchado, como ocorre no Japão? Eu mesmo iria mudar muito meu comportamento se as penas fossem mais pesadas. Multas não resolvem, por mais caras que sejam, não adianta fotografar o camarada pelo Radar e mandar uma cartinha para ele daqui a alguns dias. A polícia é quem deveria ir na casa dele e levar ele preso.

Acabar com o RenaInf

Carro de um embaixador estacionado em local proibido


Pouca gente sabe: Os veículos em nome de empresas, quando são multados, a empresa recebe um aviso e deve apresentar quem era o condutor do veículo no momento da infração. Afinal de contas, havia uma pessoa ali conduzindo o veículo, e esta pessoa deve ser penalizada, certo? Pois é, se a empresa não apresentar o condutor, é gerada uma nova multa, chamada RenaInf. Ela basicamente dobra o valor da multa original, mas desobriga a apresentação de um condutor. Os “pontos” não vão para ninguém.

Não é difícil perceber que este é um “esquema” criado exatamente para permitir que os infratores habituais possam dirigir sem se preocupar com penalizações. Basta que eles coloquem seus veículos no nome de alguma empresa (geralmente deles próprios). Dinheiro eles sempre tem, pagar o dobro do valor da multa não é um problema para eles. Problema é ter seu direito de dirigir suprimido.

Uma solução seria “buscar e apreender” os veículos com multas RenaInf, ou seja, sem indicação de condutor. E só liberar o veículo ao apresentar o condutor do mesmo. Caso o veículo não seja localizado, então que o responsável pelos veículos da empresa seja preso, até que o veículo apareça, ou o condutor responsável pela infração seja apresentado.

Incentivo ao uso de equipamentos de segurança

Motociclista totalmente equipado – Foto: Divulgação Honda


Na minha opinião, bons equipamentos fazem uma ENORME diferença na hora de passar por um acidente de Moto. Eu já caí de moto algumas vezes, e nunca me machuquei gravemente pois sempre ando equipado.
Os equipamentos de proteção diminuem muito as consequências, e também ajudam a reduzir o próprio risco do acidente, ao permitir uma condução mais tranquila e segura.

Um bom capacete, com viseira de qualidade, cuidado com a aerodinâmica, estofamento que garante conforto térmico e sonoro, permite ao piloto se concentrar mais no que realmente interessa: A pilotagem. Jaquetas e calças com protetores minimizam muito os ferimentos em caso de acidentes. Estes equipamentos são feitos de modo a não rasgar, perfurar e não sair do corpo quando são exigidos, o que garante que a pele não sofrerá nenhum trauma, os protetores absorvem grande parte da energia dos impactos nas áreas mais importantes, o que reduz muito a chance de ocorrer uma fratura. Luvas são igualmente importantes para evitar a abrasão da pele com o chão e para garantir que os dedos permaneçam todos no lugar, assim como as botas, que possuem fundamental importância na proteção dos pés.

Se você não acredita no poder dos equipamentos, veja este vídeo do acidente de Guy Martin no TT de 2010. Ele bateu a 300 km/h em uma parede no circuito de rua da Ilha de Man, sua moto explodiu, mas ele viveu e hoje continua competindo.

Estes equipamentos deveriam ser isentos de impostos, o que reduziria MUITO o custo deles, e certamente reduziria o custo com internações por acidente no SUS. O Governo estaria economizando com isso.

A legislação atual já exige que, além do capacete, o condutor de motocicleta utilize roupas que protejam o corpo, mas o texto é vago e carece de uma definição mais específica. Talvez fosse o caso de exigir que o Inmetro homologue também as roupas para andar de moto, e não apenas os capacetes.

Seguro obrigatório com perfil

O seguro DPVAT possui valor fixo hoje. Não importa se o seu carro é um Fusca ou um Camaro, não importa se sua moto é uma YBR ou uma Hayabusa. Até ai tudo bem, afinal o DPVAT não é um seguro para cobrir danos materiais, ele é um seguro para cobrir danos corporais, e as pessoas não tem valor definido, nem possuem valores diferentes entre si.

Porém, um condutor que já tenha atropelado alguém, ou que tenha sido flagrado dirigindo alcoolizado é alguém que não respeita a vida dos outros. No mercado de seguros, isso é conhecido como “risco certo”, e para este tipo de risco, simplesmente não há seguro.

Nos EUA e Canadá o seguro obrigatório é por condutor, e não por veículo. O sujeito que é flagrado em excesso de velocidade terá seu seguro aumentado para US$ 20 mil na próxima renovação. E ai? Vale a pena pagar 20 mil dólares de seguro por ano num país onde se compra duas Bandits pelo mesmo preço?

Melhorar a qualidade dos condutores


O sistema de formação de condutores está completamente falido. Além de extremamente corrupto (as próprias auto-escolas intermediam a propina para que o aluno garanta a aprovação nos exames), o próprio processo de formação é falho. 15 horas de aulas em ambientes extremamente controlados não capacitam ninguém a conduzir qualquer veículo que seja. Na formação de motociclistas o processo deveria ser ainda mais rigoroso, deveria haver provas que avaliam a capacidade de usar os freios, as setas, andar em maior velocidade e esquivar-se de situações inesperadas. Hoje a prova de motos não permite nem mesmo que o aluno coloque segunda marcha na moto! Que preparo esse sujeito vai ter para pilotar nas ruas?

Vai aumentar o custo? Vai. Mas é o preço a se pagar por um trânsito mais seguro.

Melhorar a qualidade das motos

As motocicletas possuem enorme parcela de culpa por este grande aumento no número de acidentes. Na minha opinião, se deve a péssima qualidade das novas motocicletas, principalmente as de origem Chinesa, que chegam ao mercado. Nas regiões mais carentes isso é ainda mais evidente, onde se vendem as motos mais baratas. Essas motos não possuem o mínimo de segurança para rodar.

As motos mais baratas possuem motores de baixíssimo desempenho. Estes motores tornam a pilotagem menos segura por não permitem ao condutor escapar de situações de perigo com agilidade. Além disso, essas motos possuem pneus de baixa qualidade, freios a tambor e são produzidas com materiais de baixa qualidade, ciclística e geometria completamente incorretas.

Outro detalhe: Muitas motos vendidas no Brasil nem mesmo são licenciadas. Elas rodam por ai, sem placa, sem documentos, completamente a margem da legislação de trânsito. Deveria haver um controle maior sobre a qualidade das motos homologadas para venda no Brasil, e também um controle para que nenhuma moto saia da concessionária sem o devido licenciamento.

Conclusão

A frota de motocicletas aumentou muito, e a quantidade de acidentes também aumentou. É possível atribuir a causa do aumento da frota de motos o deficiente sistema de transporte público, o aumento da renda média do Brasileiro (principalmente nas áreas mais pobres, graças ao “apoio” estatal) e o barateamento das motocicletas, principalmente com a entrada dos fabricantes Chineses no mercado nacional.

Esta aumento não veio acompanhado de medidas educacionais e evolução legislativa e processual, que são necessárias para evitar que isso aconteça.

Também faltam pesquisas mais específicas no sentido de mapear com precisão a causa raiz dos problemas. Em quais estados acontecem mais acidentes? Qual tipo de motocicletas se envolvem em mais acidentes? Os acidentes com motos foram causados pelo motociclista ou por um motorista de outro tipo de veículo? Porque? Será que ele estava ao celular ou alcoolizado?

Infelizmente, pouco movimento se vê no sentido de mudar esta situação. As iniciativas devem ser sempre pessoais. Pessoas que adotam comportamento seguro no trânsito, pagam caro por motocicletas melhores e equipamentos de proteção, e investem em treinamento especializado, estão menos sujeitas a sofrer acidentes. Infelizmente esta é uma ínfima parcela dos novos motociclistas, e é por isso que as estatísticas demonstram que a situação só tende a piorar.

E o que você acha? Se pudesse mudar apenas um aspecto no transito, qual seria? Deixe seu comentário!

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